Pela primeira vez nosso Blog comemora o seu Dia do Aviador. Aproveito pra reeditar um texto ficcional que escrevi (baseado nas memórias de Santos-Dumont), quando da comemoração dos 100 anos do primeiro voo do avião (2006):
Naquele 23 de outubro de 1906, ao chegar com o avião em Bois de Boulogne (Paris/França), sinceramente não imaginava ainda ser possível completar mais de 25 metros pelo ar. Mas assim como ocorreu com tantos inventores que enfrentavam o contraditório dos seus contemporâneos, percebi que o mesmo costumava ocorrer comigo. Quando da ascensão do pequeno balão ‘Brasil’, chamavam-me de louco ao tentar subir com aquela ‘bolha de sabão’. Foi difícil com o Número 6 contornar a Torre Eiffel, mas também ocorreu o mesmo. Seria diferente com o 14-bis? Eu já havia marcado com os juízes e não poderia adiar dessa vez.
Eles olharam-me incrédulos quando cheguei ao campo. Havia uma multidão aguardando em Bagatelle e eu até reconhecia alguns rostos ansiosos, que costumavam presenciar as demonstrações. Enquanto verificava o pequeno motor Antoinette, ouvindo o vozerio que nos rodeava, ocorreu-me, estranhamente, a expressão mineira ‘Uai, mas é gente, hein?!’ - não pude evitar um leve sorriso no canto da boca. Mas não podia perder a concentração e a confiança depositada pelos poucos que confiavam ser possível o feito. Mas a segunda tentativa mostrou que meu destino era mesmo ‘voar contra o vento’. Senti a pressão ascensional antes mesmo de esperá-la! Cheguei a perder o gramado à frente da vista. Quando retomei a atitude da aeronave tive que a manter firmemente voando reto e horizontal ao chão, pois ela ainda queria voar mais...
Adernávamos para um lado e para outro, e o vôo já estava tornando-se crítico. Estávamos certamente, como evidenciaram após, a mais de 2 metros do solo. A velocidade diminuindo e a altura aumentando, tudo muito rápido. Seguir adiante disso seria perigoso. E como observei, de soslaio, os juízes ficaram para trás e aplaudindo; pensei: ‘C´est tout!’.
Enquanto ainda corrigia o alinhamento para o pouso, uma das asas tocou antes o solo, sacudindo toda a estrutura e desajeitando meu chapéu. Não demoramos a parar e menos ainda de sermos envolvidos pela multidão, que parecia ovacionar-nos por Santô, repetidamente. Sim, ovacionar a “nós”. Eu e minha criação tornamo-nos um naquele momento. Quase sempre falavam de mim e dela como um ser único e indissociável. Mesmo com tantos outros experimentos antes e depois do 14-bis, foi por ‘aquele minuto memorável na história da humanidade’ que meu nome foi mais difundido. E através de mim que o invento ficou gravado na memória dos que comemoram este século do primeiro vôo do avião de nome 14-bis.
Há cento e três anos demonstrei isso através de uma invenção, à custa de muito estudo, persistência e risco. E convenci-me de que nenhum invento é mais brasileiro do que o avião. A lembrança secular da minha maior conquista pessoal une-se ao perfil brasileiro, quando se vê que hoje o avião pode unir Céu e Terra e descobrir novos horizontes muito além da planície.
Parabéns, AVIADOR(A)...
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