"Nossa Redação" achou por bem antepor as Damas primeiro. Sei que compreendem...
Mas segue um inestimável texto-homenagem, bem a altura dos anjos da guarda dos nossos céus.
PARABÉNS PELO SEU DIA, CONTROLADOR - 20 DE OUTUBRO
alguns dizem que está em extinção. Nem logrou êxito em ser profissão regulamentada ainda e virtualmente já era. Foi e é conhecida, carinhosamente ou por motivos não tão nobres (distinguirem-se dos balizadores de aeronaves dos pátios de manobras), como controlador de voo, coisa que irrita muita gente que voa. E a mim também, que não controlo mais nada desde que casei (rsrsrs).
Ao contrario do que muitos pensam acerca de radares e consoles tecnológicos de "última geração", a principal ferramenta de trabalho do controlador de tráfego aéreo é o seu proprio cérebro e depois a pista onde pousam e decolam seus clientes potenciais. O cérebro, como não funciona sozinho, depende imensamente de fatores psicosociobiológicos, não necessariamente nessa mesma ordem, que proporcionem uma capacidade ótima para o desafio da entrega cotidiana do Pacote de Segurança citado mais acima.
Analisando a geometria de pistas de pouso, decolagem e de taxi, bem como a disposição dos estacionamentos nos pátios, para quem é de Torre de Controle, conjugando-as com as informações disponíveis apresentadas pelos pilotos, comparando-as com as regras vigentes e internalizadas por todos ao mesmo tempo em que submete tudo isso ao confronto com os AIRACs/NOTAMs, meteorologia local ou jurisdicional em "tempo de atuação", o controlador de tráfego aéreo processa tudo e detecta possíveis conflitos em cerca de 3 a 5 seg, em média, dependendo do autor da pesquisa.
As mudanças na tecnologia embarcada das aeronaves, tanto para detecção de ameaças e falhas (segurança) como para tomada de decisões, tornam o espaço aereo jurisdicional mais povoado para o controlador, porém, a assincronia verificada na contrapartida com o que dispõe para trabalhar, revela as vulnerabilidades desse "excepcional" controlador de tráfego aereo citado no parágrafo acima na eficiencia e eficacia de sua entrega dos Pacotes de Segurança. Para manter a Produção, este controlador aprende a trabalhar com sistemas intermitentemente degradados e ao acostumar-se a isso reage com menos prontidão a detecção de conflitos. Já não sabe, pois, se o conflito é "real" ou se é produzido por um dos tipos de degradação apresentados, portanto, de certa forma, inóquo. Quando chega a esse ponto, a doutrina operacional apresentada pelo Manual de Degradação dos Sistema de Controle de Tráfego Aéreo local de nada serve. Mas é com o que ele antecipadamente prevê que o Supervisor, entre outros da sala operacional, está obrigado a recorrer e a implementar as ações mitigadoras.
Vai-se apor, em certo momento de uma investigação, que houve uma "Perda da Consciencia Situacional" quando na verdade houve uma perda da própria situação, de como ela devia ser desde o seu projeto, e seus níveis de degradação e recuperação. Se a situação foi corrompida e se trabalha conforme aceito pelos varios niveis organizacionais, a "Perda de Consciencia Situacional" é coletiva e, mais, irrecuperável e com trajetória rumo ao acidente.
Remontar o sistema corrompido para trabalhar -- agora íntegro e de novo estável -- sob o design projetado para outra época é retroceder às metas propostas pelo CONOPS que atende a um anseio global. Criar um sistema totalmente novo, portanto ainda instável, é temerario porquanto não se tem os recursos humanos adequadamente formados e capacitados para operá-lo ou, ao menos, saber reagir com o binômio eficiencia-eficacia as possiveis falhas. Reagir com eficiencia-eficacia exige experiencia e esta vem com a antiguidade operacional do Recurso Humano.Enquanto a "antiguidade operacional do Recurso Humano" do atual controle de tráfego aéreo brasileiro vem sendo extinta e substituída em tempo recorde por Recursos Humanos mais predispostos, e talvez ávidos, a trabalhar com o ambiente novo, instável e temerário em sua "tecnologia de ponta" conjugada sistemicamente à aeronave, uma lacuna de proficiencia se abre entre o que tínhamos e o que precisamos ter.
Esse é o nosso cenario atual, caro controlador de voo, caros amigos. E para não ficar crítica pela propria crítica sem apresentar um caminho diferente ao pseudo-dilema "se ficar o bicho come e se correr o bicho pega" que isso tudo acima disposto enseja, creio que a solução é intermediaria: nem fica e nem corre. Nem extingue-se o antigão e nem se supervaloriza o novinho, mas conjuga o que há de melhor entre os dois.
São considerações e votos para este dia 20 de outubro, dia internacional do controlador de tráfego aéreo.
Bemildo Ferreira - Controlador de Tráfego Aéreo.
P.S.: não vou fazer a revisão do texto. Será um tipo wysiwyg(*)."
* wysiwig - What You See Is What You Get
http://pt.wikipedia.org/wiki/WYSIWYG
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